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28 outubro 2010

A Vida Continua

Cliché gasto, mas estupidamente real e rudemente verdadeiro.

A morte de uns não pára a vida de outros. Tudo continua a acontecer apesar de, para alguém, tudo o ter deixado de.

A necessidade de correr, de respirar, de comer, de ser feliz, continua imparável. Apesar de para outros já nada disso ser preciso.

A mamã sente muitas saudades da sua avó e do seu pai. Ainda sente um vazio no coração e ainda não se habituou à ideia de que já não tem avó - que foi parte essencial da sua infância - e de que já não tem pai - pessoa fundamental para cimentar quem foi e quem é hoje.

A poeira ainda não assentou.

Mas ela não tem muito tempo para se debruçar sobre considerações. Porque ao mesmo tempo que o último sopro saía do corpo deles, a energia galvanizante das suas filhas pulsava bem forte no seu corpo. No seu corpo... A nossa vidas continua a acontecer, e a mamã tem de nos acompanhar. E assim tem de ser. E assim tem sido, apesar de tudo...

12 outubro 2010

A Imutabilidade da Tristeza

Apercebemo-nos da sua chegada, permitimos a sua entrada, mostramos-lhe onde está o sofá para se instalar.

Sabemos que se ficar por cá muito tempo, pode fazer-nos mal. Mas neste momento é Ela que ocupa grande espaço na cabeça e coração da nossa mamã.

Sentir a cabeça apertada e por isso reduzir o pensamento analitico e pragmático para niveis minimos - assegurar apenas os serviços minimos - para dar tempo às peças, que neste momento esvoaçam furiosamente em estilo furação na cabeça da mamã, de terminarem a agitação e voltarem ao lugar, é esta actualmente a sua defesa. Porque neste momento o seu cérebro está muito ocupado. Ocupado a gerir perdas de pessoas queridas, ocupado a gerir a eminência de perder mais pessoas queridas. Ocupado a gerir imagens e emoções pela visão da quase morte, da quase vida, da quase existência de quem conheceu desde que nasceu e que neste momento não reconhece, face à degradação do seu estado.

No dia-a-dia da mamã, o coração bate mais forte do que o habital, o estômago contrai-se a cada pensamento mais negro e durante a noite os sonhos aplicam a facada final, com histórias cujo enredo é sempre o mesmo: salvar as filhas da eminência de morrerem por acidente ou descuido seu.

Bem vistas as coisas, nem sabemos como é que a mamã consegue levantar-se todos os dias de manhã e falar, andar e sorrir para nós, tal é o peso que lhe pende sobre a cabeça e tão apertada está a corda que lhe aperta o coração. O que sabemos é que neste momento, ela está em "modo automático", para poupar energias. Emoções. Pensamentos. Para ter reservas para o que aí vem.

Por isso a Tristeza está actualmente instalada no coração da mamã e teima em não sair; porque neste momento é a única que não muda, é estável, é imutável. É segura... E permite à mamã recolher-se, reorganizar-se e abastecer-se de força e coragem para si e para quem, dentro em breve, delas vai precisar também...